O dia que perdi a referência

CF_LifeEu me lembro como hoje. Era uma terça-feira de maio, as 11h30, um dia chuvoso que parecia indicar que o tempo não seria nada bom naquele dia. A chuva batia na janela e a nuvem preta circulava o espaço interno como se já soubesse onde iria parar. Ia ser bem em cima de mim. E parou.

Foi neste dia e nesta hora que perdi a referência.

Perdi a referência do que é entregar as atividades no prazos acordados com os clientes que também possuem clientes e contam com aquela entrega para satisfazer os seus, já que as datas não estavam sendo cumpridas e ninguém tinha se preocupado com elas. Olhava para os lados e só via tapinhas nas costas e risadas pelos corredores. Foi aí que aprendi a lição número 1: “Sabendo conversar bem e vender seu peixe como fresco, mesmo não sendo, seus resultados pífios acabam virando realizações monumentais”.

Perdi a referência quando percebi que só alguns estavam se esforçando em benefício do grupo e que nenhum daqueles esforçados apareceu na hora da foto. O que dizer sobre os outros que encontraram enfartos fulminantes porque tiveram que levar o problema para resolver em casa, já que os que poderiam ajudar foram passar a noite na balada. Lição número 2: “Você deve estar no lugar certo e na hora certa para aparecer. Somente quem sai na foto tem seu esforço reconhecido.”

Perdi a referência do que era certo e errado, já que os que faziam errado sempre se davam bem e os que faziam o certo penavam para conseguir alcançar seus resultados. Ou também pelos casos que o cara que está preso ganha mais por mês do que aquele que trabalha as 44 horas semanais. Lição número 3: “Se você pode fazer errado, faça. Assim você sempre terá coisa para refazer e garantir seu emprego por mais um tempo.”

Perdi outra referência com o conceito de iniciativa. Os que possuem a tal da iniciativa são mais lembrados do que aqueles que chegam nas “terminativas” e entregam a chave de um projeto bem sucedido. Lição número 4: “Demonstre iniciativa, puxe as responsabilidades para si e não se preocupe, ninguém cobra mesmo.”

Perdi a referência também porque tinha descoberto que cumprir metas era importante somente para um ou outro e não para todos, desde que você saiba como apresentar bem que você não fez aquilo que tinha prometido fazer. Ou até porque também podemos fingir que estamos trabalhando e as pessoas fingirem que estão acreditando. Lição número 5: “Saiba transformar o não realizado em realizações homéricas. Pode também apresentar algo que não tem nada a ver, só para mostrar que você fez algo que não adianta para nada. É isso que vale.”

Perdi mais uma das referências quando vi que a regra é somente aplicável àqueles que se deixam sucumbir e não para os que se fazem de mais fortes e defendem a exceção como se fosse verdade.  Ou porque deixamos a chave da cadeia na mão do bandido e colocamos a culpa no coitado do guarda. Lição número 6: “Para os amigos, vale tudo. Basta saber para quem mandar o email.  Para os inimigos, siga o procedimento e o que está escrito no manual.”

Outra referência perdida foi quando o cara que era para ser o comandante do exército e ditar o ritmo das tropas, estava negociando com o general sobre como mais bonito seria apresentar as tropa usando o verde ao invés do vermelho. Ou pode ser quando vi que não existe nenhum cara que dê um soco na mesa e cobre os resultados de maneira incisiva e faça alguém responder por algo prometido e não cumprido. Lição número 7: “Negociação e apaziguamento em níveis estratégicos não vai resolver o problema. O peso da tomada de decisão aumenta conforme sobe-se na escada corporativa.”

Pode ser também que eu tenha perdido esta referência quando vi que as pessoas tentam cobrir o sol com a peneira, fugindo das responsabilidades (ou não assumindo nenhuma) para então poder apontar  e dizer: “não fui eu que me comprometi com isto, veja com fulano”. Ou quando assumem diversas delas mas não conseguem nem responder a um telefonema. Lição número 8: “Seja como um bagre: escorregadio e com espinhos venenosos. Melhor ainda se estiver todo ensaboado, aí que ninguém te pega.”

Perdi também quando percebi que era só eu o preocupado com as migalhas de economia conseguidas a duro custo junto aos fornecedores e vendo o dinheiro voando pela janela através das mãos daqueles não preocupados com a organização. Lição número 9: “Se os gestores não estão nem aí para os custos, porque você vai se estressar?”.

Ou quando vi que capacitação da equipe é extremamente importante para o desenvolvimento do grupo, desde que o grupo pague por ela. Lição número 10: “Capacite-se para o mercado de trabalho. Ele valoriza você mais do que a empresa que você está.”

Tem também os casos onde quem deveria ditar a regra não tem uma opinião própria e busca definir a sua em um consenso de pessoas que só se preocupam com si. E em situações que pessoas apontam outras como as melhores saídas para um problema, mas na primeira oportunidade levantam todas as poeiras de incompetência que poderiam existir só para demonstrar que a escolha foi a errada. Lição número 11: “Escolha bem as pessoas que ficarão no comando. Elas podem estar minando o terreno à sua frente e você pode pisar na mina.”

Perdi a referência porque vejo gestores que ninguém sabe o que fazem, mas continuam mamando na teta corporativa. Ou porque vejo alguns beneficiando pessoas pelos belos cabelos e não pelas belas performances. Pode ser também porque eles estão tão focados no micro gerenciamento da cozinha dos outros que acabam esquecendo que a sua está cheia de formigas. Lição número 12: “Se você não sabe o que fazer, não deixe ninguém descobrir. Aponte os erros e limitações dos outros para que o foco não seja mais você.”

Ou de pseudo-gestores que ainda acreditam que ganhar no grito é o melhor resultado que se pode alcançar ou que envolvem 10 pessoas <não envolvidas no processo> para discutir sobre um processo recorrente  e que nunca conseguem chegar à uma conclusão. Lição número 13: “Envolver muita gente que não está preocupada com o assunto em questão para discutir a saída é um grande ganho de tempo, tempo perdido.”

Acho que perdi a referência porque não sei mais o que é trabalhar certo e fazer direito pela primeira vez, o que é me comprometer com o cliente, o que é entregar no prazo, o que deveria ser entrega com qualidade, o que é parceria ou o que chamamos de trabalho em equipe.

Enfim, deixei de ter a referência quando aquele gestor que eu mais me espelhava rachou.

Pense nisto e mude sua referência.

Sobre BIZZETTO, Marco Aurelio

Marco Aurélio BIZZETTO acredita que o mundo pode ser bem melhor se focarmos novamente nas pessoas, em suas competências e principalmente suas diferenças. É administrador de empresas, especialista em Psicologia Oganizacional e MBA em Gestão de Projetos pela POLI-USP. Professional e Executive Coach pela SBC.
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